quinta-feira, 20 de agosto de 2020

A Letra Cursiva


Ótima matéria sobre o "fim" da letra cursiva, que guardo há muito tempo. Para não se perder e para quem se interessar sobre o tema, deixo ela aqui.
O texto - A Mão Ativa o Cérebro - foi escrito por Luís Guilherme Barrucho para a Veja, julho de 2011.
E os cérebros estão cada dia mais desativados.


domingo, 16 de agosto de 2020

Renda de Sianinha


A sianinha é um enfeite para roupas - "ondinhas copacabana" -  de uso muito comum em barrados para toalhas e panos de cozinha, nas roupinhas para creanças, nas fantasias de carnaval, nas caipirinhas de São João. Cafona, terrível nos modos em que é utilizada, alternando em cores e espessuras para ornar qualquer coisa, não é um recurso que se diga de bom gosto. Mas...mas...
Ao ver este trabalho acima e muitos mais feitos com a simplória sianinha, a partir dela e com o auxílio do crochet e também de bordados, as tão medonhas sianinhas se transformam e se tornam - ou melhor, se tornavam, porque ninguém mais faz esse tipo de trabalho - em rendas de altíssima qualidade estética para o vestuário e de bom gosto indiscutível.
Hoje a sianinha não é usada assim, tão linda, mas se alguém - "uma santa criatura" - reabilitasse esse uso maravilhoso das sianinhas e elas estariam facilmente nas passarelas da moda, usadas como renda e um recurso de luxo em roupas femininas.
Quem quiser ver mais preciosidades feitas com a humilde sianinha, que entre no Facebook na página do Acervo de Nina Sargaço. Lá tem sianinhas aplicadas nos tradicionais trabalhos brejeiros e populares ( os antigos eram lindos! ) e também os de luxo, como nesta renda da imagem. 
E muito mais coisas incríveis se encontra lá, além das sianinhas.
Nota: as sianinhas de antanho eram todas de puro e bom algodão. Acho que as de agora são de puro petróleo.



quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Elis Regina . Programa do Show Transversal do Tempo . 1978


Encontrei por esses dias este programa do show de Elis Regina, o Transversal do Tempo. Uma surpresa total!!!! 
Adorei na época, o disco do show, mas o disco anterior, o Elis, eu não curti. Como imaginei que o show Transversal do Tempo teria como base as músicas daquele disco, não me interessei de ir ver o show quando ele foi apresentado aqui em Salvador, no Teatro do ICEIA.
O Elis de 1977, eu achei um disco pesadíssimo, triste, encucado, como estava a cabeça de Elis naquele período. O Brasil não estava nada fácil também, principalmente para alguns artistas como ela. Então, fazer um disco e um show altamente engajado politicamente, reivindicatório era o que Elis queria fazer e fez. O show era ou foi a contribuição de Elis Regina, como artista e como pessoa, para falar sobre o Brasil daquele momento, como ela via aquele momento.
 Hoje eu entendo o show como um alerta para a desintegração, a desvalorização do país e da sua natureza, de suas matas, animais, índios, o povo simples, o operário, a massificação, os trabalhadores no qual ela estava incluída, sufocada e engolfada como artista, vivendo na "selva das cidades" e lutando para sobreviver.
Sim, voltando. Não quis ir assistir ao Transversal do Tempo. Estava eu, também, "de férias de Elis Regina", como disse Caetano Veloso na época. Ele - com toda razão - não curtiu a forma como ela interpretava a música Gente, meio que ridicularizando a letra. Elis estava sem humor naquele período. Se a música não fosse engajada, ela achava fútil. Gente se fosse cantada seriamente não destoaria do todo do show, afinal e no final, o povo brasileiro quer brilhar mesmo, existir e não morrer de fome. Viver com dignidade. Mas Elis, ou quem orientou ela na direção do show e na elaboração do roteiro, não viu ou não quiseram que ela visse qualidades na letra de Caetano.
E eu não fui ver o show com meus amigos, lá no teatro do Barbalho. Depois eles me falaram maravilhas, tipo "você perdeu etc. e tal. "ela estava uma loucura", "cantando divinamente, pra variar, afinadíssima"..."cantava uma música num tom altíssimo e correndo de um lado pro outro do palco - a música Corpos de Ivan Lins e Vítor Martins - sem parar..." achei uma loucura... só Elis mesmo pra fazer tal feito. E sem desafinar.
Mas nada me abalou. Quando o disco ao vivo saiu eu fui logo comprar e adorei. Que ódio!!! Eu deveria ter ido kkkk, com certeza, vendo o show,  minha resistência iria ter fim, nocauteada pela maravilha de ver Elis em cena e cantando com aquela vontade e gana que ela tinha quando entrava no palco.
Mas, Elis, sempre mudando e partindo pra outras, no disco seguinte o Essa Mulher, - ela já era uma nova Elis, uma nova mulher - já me arrasou, já caí de 4, me enlouqueceu e o show seguinte no TCA eu não perdi.  
E aquela foi a primeira e última vez que vi Elis Regina ao vivo.







 Uma máquina Hermes - sou o feliz possuidor de uma até hoje! - e um Caravan. Carro imenso que dava para mil famílias. E o cachorro. Coisas da época na transversal do tempo. Ainda nem se imaginava, em 1978, um computador nas casas, corriqueiro como um liquidificador, internet, cruzes!, celular...ficção, misericórdia! Creio em deus padre! Hoje a gente vive o final do tempo. Nada de bíblico pelo amor. Final de linha. O tempo se esvai e se consome e não temos tempo nem de refletir se estamos numa reta ou numa transversal, o momento anterior, o que foi? e o seguinte, o que será? não temos ideia. Nem causa e consequência tem resultado, não dá em nada e se der, nada. É um final nada. Nenhum. Embaralhou o meio de campo e segue assim. Melhor seguir - vamos! - senão ficamos...ficamos? como? As coisas que eu sei de mim?
Caminhemos, talvez nos vejamos depois.
Talvez nos vejamos, quem sabe. 
Quanto tempo. Pois é. Quanto tempo.


sábado, 1 de agosto de 2020

Passando Uma Costura na Máquina . Bordando com a Linha do Tempo


Amo uma máquina de costura antiga de pedal. Cresci vendo minha avó bordando na máquina e eu, ficava ao lado olhando aqueles movimentos lentos dela controlando os pontos para não sair do risco, movimentando o bastidor com calma para sair um belo trabalho.
Tenho uma máquina dessas e faço umas coisas rápidas, passo uma costura, "bato" uma bainha e só. E eu adoro quando tenho que fazer esses simples trabalhos. O barulhinho da máquina me acalma e hipnotiza, entro num transe e me transporto para um lugar bom, calmo e tranquilo, assim como era o jeito de minha querida avó, Ascenção.
Gravei o barulhinho da máquina hoje quando "passei uma costura" na minha Pfaff 30.
( A pintura acima eu esqueci de "assentar" o nome do autor. Quando eu encontrar coloco o nome dele aqui. Minha avó costurava pouco, ela bordava para ela, para presentear e também para vender. Nunca foi de cair exausta em cima de uma máquina como esta moça da pintura e como muitas costureiras que eu conheçi que sustentavam uma casa com o trabalho da costura. E ficavam exaustas, com dores de cabeça, enxaquecas depois de cortar, alinhavar, costurar, fazer as provas e depois, pressionadas pelas freguesas para entregar o suado trabalho no dia combinado. Recebiam o dinheiro e tudo começava novamente. Um árduo trabalho, mas, mais digno que este eu não sei! Hoje, eles e elas não querem mais costurar. A profissão de alfaiate acabou. A de costureira, idem. A menina de hoje não quer costurar, "puxa muito pela cabeça", é preciso raciocinar e não sabem matemática, as quatro operações fundamentais e, a costura, é cálculo, é projeção, matemática! 
Já era, então! Tá difícil!).


A minha Pfaff. E o som dela.






Acima, uma sonhadora e encantadora senhorita sentadinha na sua Pfaff em momento/descanso. Costureira de "mão cheia", ela passaria, em seguida, boas horas aviando as suas costuras na magnífica Pfaff. Tinha boa freguesia, costurava para senhoras do mais fino tracto, senhoras de prol!
E John Lennon, abaixo, passando uma costura na sua boa Pfaff! Ele, aliás, era costureiro e alfaiate e, nas horas vagas, era também cantor e compositor de um grupo vocal que fez relativo sucesso na Inglaterra onde nasceu. 
E tenho dito!


terça-feira, 28 de julho de 2020

Casa Moreira: Fragmento de um Papel de Embrulho





Eu adoro esses papeis de embrulho, como se diz hoje, personalizados kkkk, mas, antigamente, era signal de luxo, de "loja boa" conceituada, fina...Os desenhos - os motivos - eram lindos, feitos à partir de clichês que reproduziam o que se queria com imperfeições, borrados, falhados, a tinta espalhada manualmente na chapa de metal, deixava lugares com mais ou menos nitidez as estampas. Amo essas imperfeições. Sempre que acho um papel desses, que pode ser uma "naca", um rasgo esquecido em algum lugar por aí, eu traço e escaneio pra colocar aqui.
Esse papel da Casa Moreira é lindo, oferecia e mostrava, já no papel do embrulho, o que a loja vendia de bom. Peças antigas de imaginária sacra, prataria, ourivesaria, joias antigas. Móveis. Crucifixos ricos de base em jacarandá com resplendores e ponteiras de prata, um esplendor! Além disso, louças finas, finíssimas!! francesas, inglesas, cristais de todas as procedências. Biscuits. Artigos finos de decoração e para presentes. Um luxo.
A Casa Moreira ocupava dois endereços no centro da cidade de Salvador. Uma casa grande na Ladeira da Praça e outra, em um prédio inteiro art déco de quatro andares!! na Rua da Ajuda na esquina com a ladeira. Desde menino que transito por ali, a vida inteira vi as duas casas que estavam à minha vista com suas belezas sempre à mostra nas vitrines de vidro, que  exibiam as maravilhas do seu "stock".
Pois bem, um belo dia, e isso já faz uns bons sete anos por aí, as duas lojas fecharam! Foram entristecendo como pessoas, ficando doentes e morreram!
Comprei algumas coisas na Casa Moreira, coisas ótimas que adoro, como um armário com espelho de cristal preso com mãozinhas, de quarto, decorado com marchetaria, estilo "francez", super bonito e que está em minha sala. Continuando...
Mas, uns dos proprietários reabriram uma outra loja, A Nova Moreira, no Rio Vermelho, bairro de Salvador, e com o mesmo acervo.  Nunca fui lá, para mim, aquele lugar é de passagem - ou passo dentro de um "buzu" ou de táxi - nunca vou lá de bobeira como eu ia no centro, e continuo indo "de caju em caju" como no tempo em que ainda existia a Casa Moreira.

E o número do telefone??? Que máximo! Cinco dígitos! 3-0600. Vou ligar imediatamente e reservar uns objetos de arte. E muitas jóias com acento agudo que são as melhores!



sábado, 25 de julho de 2020

Um Manto de Nossa Senhora

 Dobrado. Vamos abrir o manto de Nossa Senhora e nos proteger nele. Vamos lá!








 Rasgo e cerzido.



























 Este manto. A história. Comprei em um bazar católico. Acho que depois de o manto ter servido muito a alguma igreja, prestado bons serviços por longos anos, resolveram se desfazer dele, vender. Antes pensaram em cortar - tem uma grande linha horizontal cortando o manto -, mas, suponho, viram que não ia dar certo e deixaram pra lá aquilo que, para mim, seria um crime, meter a tesoura em um tão lindo e antigo manto que Nossa Senhora carregou nos ombros por tanto tempo.
Ainda bem que cheguei lá na hora em que colocavam à venda e comprei imediatamente.
O manto é um escândalo de lindo, de veludo creme e esmaecido lindamente pelo tempo, de estrelas salpicadas em todo o campo, estrelas bordadas a ouro, fios de ouro e pequenas contas douradas. Na orla do manto lindas folhagens também em ouro e nos cantos da frente - para arrasar! - um bordado que invade o tecido com ramos e folhagens em ouro. Em todo o manto, um bico em ouro arremata toda a extensão do manto. O bico é preso a mão com ponto atrás. Um belíssimo manto!!!
Há estrelas faltantes, há lugares com rasgos que foram cerzidos, há bordados faltantes e soltos, os fios se desprendendo, fios ressecados e sem brilho, oxidado, mas, no geral está inteiro e com sua dignidade, altivez.
De qual período seria este manto? Quanto anos teria ele? Seria dos anos 20, 30 do século passado??? Do século XIX? Não sei.
Há mais ou menos 10 anos eu tenho esse manto, sempre guardado, dobrado e embrulhado em um saco plástico e dentro de uma grande caixa de papelão. Preciso envolvê-lo em papel seda, tirar do plástico para o tecido poder respirar. Nunca fotografei, hoje, arrumei um armário onde ele está e tirei o manto para passear em minha casa. Fotografei para postar aqui. 
A casa de um devoto - eu - deve estar abençoada por guardar um manto de Nossa Senhora.